sábado, julho 4, 2020
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Após os ‘Jogos Fantasma’ de Tóquio-1940, a história se repete

A decisão de adiar os Jogos de Tóquio-2020 devido à pandemia do novo coronavírus é sem precedentes, mas de alguma forma a capital japonesa já passou por uma situação comparável quando desistiu de realizar a edição de 1940, que lhe havia sido atribuída.

Dois anos antes dessa nomeação, em 1938, foi a política expansionista japonesa na China que motivou a dissolução do sonho.

Realocados para Helsinque, os Jogos de 1940 acabaram não acontecendo, como efeito colateral da Segunda Guerra Mundial, e entraram na história com o apelido de ‘Jogos Desaparecidos’.

Teria esse precedente histórico sido um mau presságio? De qualquer forma, a situação atual apresenta alguns pontos em comum com o do século passado.

Para promover sua candidatura, os japoneses promoveram na época a resiliência de seu povo, que havia sido vítima de um devastador terremoto em 1923, explica David Goldblatt, autor de uma história dos Jogos Olímpicos.

É possível fazer um paralelo com os Jogos de 2020, que iam ser celebrados nove anos depois da catástrofe nuclear de Fukushima.

Diplomacia cultural

Outra semelhança: assim como acontece hoje, a reivindicação de Tóquio de se tornar a primeira cidade asiática a sediar os Jogos foi muito além do esporte.

A candidatura “era parte integrante de uma diplomacia cultural internacional destinada a melhorar as relações com as democracias ocidentais, em particular com o Reino Unido e os Estados Unidos”, conta Asato Ikeda, um estudante universitário que escreveu sobre os Jogos de 1940.

No plano interno, o ano de 1940 marca os 2.600 anos da entronização do imperador Jinmu, o lendário fundador da dinastia imperial.

A defesa do projeto japonês perante o Comitê Olímpico Internacional (COI) atesta a importância que os japoneses deram a essa empreitada lançada em 1932.

“As Olimpíadas devem vir naturalmente para o Japão. Se não for esse o caso, o motivo será necessariamente injusto”, dizia naquela ocasião Jigoro Kano, o primeiro membro japonês do COI e arquiteto da candidatura de Tóquio na época.

E na luta contra Roma e Helsinque para ser a sede das Olimpíadas, todos os meios foram válidos. Com o ditador italiano Benito Mussolini, eles concordaram em apoiar Tóquio em 1940 com a promessa de apoio japonês a Roma em 1944.

A estratégia da retirada de Roma funcionou e Tóquio venceu a eleição com 37 votos contra 26 de Helsinque.

Tensões

Os preparativos começaram: cartazes foram imprimidos, uma programação foi elaborada e a cerimônia de abertura foi marcada para o dia 21 de setembro de 1940.

Mas a geopolítica voltou a atrapalhar os planos. Desde a invasão da Manchúria chinesa pelo exército imperial em 1931, a pressão aumentou para o Japão. A Liga das Nações se recusou a aceitar a anexação, levando o arquipélago a se retirar em 1933 do órgão internacional antecessor da ONU.

Nesse contexto de tensões, a população japonesa pede o uso do dinheiro reservado aos Jogos para fins militares.

Diante das ameaças de um eventual boicote britânico e americano aos Jogos de Tóquio, primeiro os diplomatas tentaram acalmá-los. “Os cidadãos de Tóquio estão fazendo todo o possível para tornar os Jogos de 1940 um sucesso”, disse o governo local em mensagem ao COI.

No final, o Comitê Olímpico Japonês acabou cedendo à pressão e renunciou à realização dos Jogos em julho de 1938, invocando “problemas com a China” insuperáveis.

“Nas atuais circunstâncias, não havia outro caminho”, dizia um boletim informativo de Tóquio dedicado às Olimpíadas.

Os Jogos de Inverno, planejados em Sapporo, ao norte do arquipélago, enfrentaram a mesma situação e acabaram tendo o mesmo destino que os de verão: realocação e cancelamento posterior.

“O cancelamento certamente não foi tão surpreendente, em um contexto de degradadas relações internacionais e crescente atividade militar no continente asiático”, avalia Asato Ikeda.

O fim da história aconteceu 24 anos depois: em 1964, Tóquio se tornou a primeira cidade asiática a sediar as Olimpíadas. Desta vez, parece que a capital japonesa precisará esperar apenas um ano para ver os atletas competindo.

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