segunda-feira, maio 16, 2022
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Um ano depois, o que a Rio 16 deixou para o Brasil? Uma cidade e um país envoltos por corrupção, dívidas e promessas perdidas

  • Felipe Wu abre a porta e pede desculpas pela bagunça. No chão, ao seu lado, está uma mala com roupas e várias maletas repletas de pistolas. Caixas de munição sobem pelas escadas. Há sapatos na cozinha. Caixas na sala. Um buraco na parede onde ficava o ar condicionado. Esta é uma casa em desordem. Uma família que está para se mudar.
  • A casa modesta de 80 metros quadrados fica em uma rua estreita no elegante bairro do Itaim Bibi em São Paulo, o principal polo econômico do Brasil. Sua existência modesta contrasta fortemente com os muitos prédios altos e opulentos que ocupam alguns dos endereços mais ricos da cidade. Porém, em algumas semanas, este local não será mais o lar de Wu e seus pais. O pequeno quintal onde ele treinou durante anos para ganhar a primeira medalha olímpica de tiro do Brasil desde 1920 será, em breve, um local em obras. O corredor estreito do quintal lateral onde ele pendurou seus alvos para ir em busca de seu sonho olímpico por 12 anos vai encontrar seu destino final: uma escavadeira.
  • A casa de Wu, assim com as outras no quarteirão, estão programadas para serem demolidas e logo serão substituídas por duas torres. Seria de se esperar que essas casas suntuosas servissem para receber uma das 19 medalhas olímpicas que os brasileiros ganharam no Rio no ano passado. Mas o sucesso contribuiu muito pouco para melhorar o estilo de vida de Wu. Ao contrário, a Olimpíada tornou as coisas mais difíceis.
  • “Nem nos meus piores sonhos eu poderia imaginar que viveria o que estou vivendo agora”, diz Wu, de 25 anos, que chegou ao pódio na competição de pistola de ar de 10 metros.
  • “Depois de ter um bom resultado, senti uma centelha de esperança. Mas ela nunca se materializou. Isso é triste. Perdemos a oportunidade de transformar os esportes no Brasil. De levar todos os esportes a um nível profissional. E envolver crianças nos esportes. De formar os próximos campeões. Isso tudo é decepcionante”.
  • A Olimpíada do Rio 2016 deveria ter sido o segundo movimento de uma seqüência de dois para anunciar a chegada do Brasil ao rol das potências esportivas mundiais. Mas, em grande medida, aconteceu o oposto.  Receber a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 em meio à maior crise econômica e política do país resultou em uma combinação explosiva de promessas não cumpridas.
  • Se por um lado 15 das 27 instalações esportivas originais já sediaram algum tipo de evento desde os Jogos Olímpicos, outras permanecem completamente abandonadas, e sua decadência e degradação são um lembrete constante do que elas deveriam ter sido. No início deste mês, o fogo de um balão incendiou o teto do velódromo do Rio e danificou significativamente a pista de pinho siberiano.
  • O Parque Deodoro, aclamado por políticos brasileiros e defensores da Olimpíada como um passo para a melhoria de um dos bairros mais pobres do Rio, está danificado. A piscina comunitária que deveria ter resultado da pista de canoagem slalom está fechada desde dezembro e ainda não tem previsão para reabrir. Segundo relatório do Tribunal de Contas da União (TCU), divulgado na semana passada, outra piscina do complexo está cheia de lodo, insetos e fezes de capivara. O elevador que já foi usado para ajudar na travessia de torcedores por cima de uma estrada movimentada agora leva a nenhum lugar.
  • Dezesseis quilômetros dali, no Parque Olímpico, a situação não está muito melhor. A cidade abriu licitações para empresas privadas gerenciarem o parque e ninguém se inscreveu, deixando a responsabilidade para o Ministério do Esporte. Somente a manutenção vai custar aproximadamente $14 milhões aos cofres públicos neste ano. O novo prefeito do Rio, Marcelo Crivella, cancelou os planos de transformar o estádio de handebol em quatro escolas públicas. E as 31 torres que compunham a Vila dos Atletas, que deveriam ter sido transformadas em apartamentos de luxo, ainda estão completamente vazias.
  • Até mesmo algumas das medalhas ganhas pelos atletas estão manchadas ou quebradas, e mais de 10% delas foram enviadas de volta ao Brasil para serem consertadas. O Comitê Rio 2016 credita os dados a problemas de manuseamento feito pelos atletas.
  • Final da história: quase um ano depois do encerramento dos Jogos Olímpicos, o comitê organizador do evento ainda deve R$  126,5 milhões aos credores. A Bloomberg afirmou em abril que a entidade o estava tentando pagar os credores com ares-condicionados, unidades portáteis de energia e fios elétricos. Em julho, o Comitê Rio 2016 pediu ajuda ao Comitê Olímpico Internacional para sanar sua dívida; o COI disse não.
  • As promessas de que a Olimpíada modernizaria o Rio e tornaria suas ruas seguras e suas favelas mais limpas também fracassaram. De acordo com o Instituto de Segurança Pública, roubos nas ruas subiram 48% e agressões mortais subiram 21%, as taxas mais altas desde 2009. Nos primeiros três meses de 2017, crimes violentos subiram 26% em comparação com o mesmo período de 2016. O Estado do Rio ainda não consegue pagar seus professores, funcionários de hospitais, policiais e outros funcionários públicos em dia, quando consegue pagar. Muitas favelas ainda não têm água potável ou remoção adequada de esgoto. “O legado prometido das Olimpíadas de conseguir uma cidade segura para todo mundo não foi cumprido”, escreveu a Anistia Internacional em seu relatório pós-Rio de setembro de 2016. “Pelo contrário, permanece um legado de violações de direitos humanos”.
  • Amplamente negligenciados durante grande parte da comoção pós-Rio estão os atletas brasileiros. Não só aqueles como Wu, que alcançaram os maiores níveis de sucesso, mas também a próxima geração. Esgotaram-se os patrocinadores. Os técnicos de elite fugiram do país. Fecharam-se centros de treinamento. E os atletas se perguntam como – ou mesmo se – ainda vão conseguir competir.
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  • APU GOMES/ESPN

    Felipe Wu, primeiro medalhista do Brasil nos Jogos do Rio de Janeiro
    Felipe Wu, primeiro medalhista do Brasil nos Jogos do Rio de Janeiro
  • Em dezembro de 2009, dois meses depois que o COI concedeu ao Rio sediar os Jogos Olímpicos de 2016, o então presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, chegou à celebração do Prêmio Brasil Olímpico duas horas atrasado. Usando a mesma gravata azul com listas brancas, verdes e amarelas que vestiu naquele dia memorável em Copenhague, ele recebeu, orgulhosamente, o prêmio de Personalidade Olímpica do Ano pelo papel que desempenhou ao ajudar a trazer a primeira Olimpíada para a América do Sul.
  • Foi uma mudança radical comparada a dois anos antes, quando os torcedores o vaiaram ruidosamente no Estádio do Maracanã durante a cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos. Agora, sua popularidade está nas alturas. Naquela noite, ele decidiu não ler o discurso preparado por sua equipe e, em vez disso, falou por 28 minutos e prometeu “a Olimpíada mais organizada do mundo”. Ele disse que os Jogos Olímpicos tinham o poder de tirar uma criança da favela e mudar sua vida para sempre.
  • Nada disso poderia ser feito, disse Lula, sem a ajuda da comunidade empresarial – não por patrocinar atletas bem-sucedidos, mas financiando a estrutura esportiva do Brasil. Então, eles poderiam transformar aquele garoto problemático em um campeão olímpico. A multidão se agitou.
  • Nos meses e anos que se seguiram, a proclamação de Lula se sustentou com um fluxo aparentemente infindável de apoio financeiro, pois o governo do Brasil investiu aproximadamente R$ 12,6 bilhões no esporte brasileiro. O dinheiro continuou entrando com o término do mandato de Lula, quando ele foi substituído por Dilma Rousseff, e esse dinheiro representou mais de 90% do total de investimento no setor. Foi como um curso relâmpago sobre como comprar medalhas olímpicas, tentando formar o maior número possível de atletas de nível internacional antes dos Jogos do Rio. Wu foi um dos que se beneficiam dos investimentos. Ele havia treinado sozinho até 2015, quando a Confederação Brasileira de Tiro contratou um respeitado técnico internacional. Seu desempenho disparou. Ele ganhou a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de 2015 e dois títulos na Copa do Mundo no seu percurso até o Rio, antes de ganhar uma medalha em casa.
     Não demorou muito para a fonte secar. A “Operação Lava-Jato”, que começou como uma investigação de lavagem de dinheiro em um posto de gasolina na capital Brasília, explodiu e tornou-se um dos maiores escândalos de corrupção da história do país.
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